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Bahige Fadel Bahige Fadel Professor de Português e Literatura Membro da ABL

Esses verbos! - I

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Durante meus mais de quarenta anos como professor de português, deparei com várias dificuldades de meus alunos. Passavam os anos, os alunos mudavam, mas as dificuldades eram as mesmas. Nem vou falar das dificuldades na análise sintática. Essas se tornaram lendas, até. Hoje, pessoas mais velhas se lembram dessa época em que os professores reprovavam alunos que não sabiam analisar sintaticamente uma estrofe de Os Lusíadas, de Camões. Hoje, isso não acontece mais. Os tempos são outros.
A conjugação de alguns verbos sempre foi um dilema para os alunos. Posso acrescentar que esse dilema não se restringe às salas de aula. Pessoas que já passaram por elas e, agora, ocupam cargos de destaque ainda passam por esse dilema. Não, não vou dar como exemplo os discursos de improviso do nosso Presidente, que, aliás, ao invés de incentivar o estudo, afirma para o mundo inteiro que ler lhe dá sono e que se formou na escola da vida.
Nesta crônica, vou-me referir, apenas, a uma técnica que costumava adotar com meus alunos, para diminuir a quantidade de erros que cometiam ao empregarem certos verbos. Trata-se dos verbos derivados.
Quando ministrava minhas aulas, percebia erros como este: ‘O árbitro da partida interviu na confusão e resolveu o problema entre os jogadores.’ O aluno não conseguia perceber o erro. Muitas vezes, dizia: ‘Ante a dificuldade, eles manteram a calma e resolveram o problema.’ Para eles, era normal falar – e escrever – dessa maneira.
Por outro lado, ao pedir aos alunos que preenchessem certas frases com verbos primitivos, eles acertavam, sem dificuldade. Exemplos: ‘O árbitro da partida _______ (vir) até o auxiliar e pediu-lhe explicações.’ e ‘Eles ______ (ter) calma e resolveram o problema.’ Os alunos preenchiam, sem dificuldade, com ‘veio’ e ‘tiveram’. Percebi, então, que o problema estava, especificamente, com os verbos derivados.
O que fiz? Pedi a eles que, quando precisassem empregar um verbo derivado, mentalmente, fizessem o raciocínio com os verbos primitivos correspondentes. E não é que deu certo? A partir daí, começaram a falar e escrever ‘interveio’ e ‘mantiveram’.
Essa dica pode ser adotada para outros verbos. Vejamos a frase: ‘Os palhaços _______ (entreter) as crianças, durante a festa. Uma pessoa que tenha dificuldade na língua portuguesa poderá colocar ‘entreteram’, sem perceber o erro. Mas, por mais dificuldade que tenha, uma pessoa jamais dirá ‘Os policiais teram muita paciência na hora do conflito.’ A não ser que seja um estrangeiro recém chegado ao Brasil, dirá que os policiais ‘tiveram’ muita paciência...’ A partir disso, fazendo o raciocínio com o verbo primitivo, dirão, com certeza, que os palhaços ‘entretiveram’ as crianças, durante a festa.
Se você, caro leitor, tiver essa dificuldade, poderá tentar o recurso. Depois, diga-me se deu certo.

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