Bahige Fadel
Professor de Português e Literatura
Membro da ABL
Até os bons erram
A maioria dos leitores já deve ter lido algo escrito pelo jornalista Juca Kfouri, do jornal Folha de São Paulo. É um jornalista esportivo de grandes virtudes. Pessoa lúcida, politizada e destemida. Não se atém exclusivamente a escrever sobre esporte. Não raras vezes, tece corajosos comentários sobre as questões políticas no Brasil. Além disso, revela boa cultura e bom uso da língua portuguesa.
Apesar de todas essas virtudes, não está livre de, num descuido, tropeçar em questões simples da língua portuguesa. Esse tropeço ocorreu na crônica do dia 08-02-10, quando escreveu: ‘Ao governo, em todos os seus níveis, caberá (sic) os gastos com obras que lhe dizem respeito.’
E qual foi o erro ‘simples’? – perguntará o leitor. O erro simples foi que o renomado Juca Kfouri, a quem assisto na ESPN e a quem leio na Folha, deixou de concordar o verbo com o sujeito da oração. Garanto que ele aprendeu isso, quando estudou no ginásio. Todo professor de português ensina que o verbo deve (salvo exceções) concordar com o sujeito da oração a que pertence.
Assim, na frase tirada da crônica do jornalista, há o verbo caber (caberá) na terceira pessoa do singular, enquanto o sujeito ‘os gastos’ se encontra na terceira pessoa do plural. Para que a oração fique correta, ‘caberá’ deverá ser substituído por ‘caberão’: ‘Ao governo, em todos os seus níveis, caberão os gastos com obras que lhe dizem respeito.’
O que teria motivado o erro do jornalista da Folha? Com certeza, foi a opção de colocar a frase na ordem indireta.
Para que não fique nenhuma dúvida, vamos explicar o que é uma ordem indireta. As palavras de uma oração podem estar na ordem direta e na ordem indireta. A ordem direta é a mais natural e é constituída por sujeito, verbo e complementos/adjuntos, nesta ordem. Qualquer mudança que se fizer nessa ordem fará com que a oração fique na ordem indireta. Vejam um exemplo: ‘Os bandidos assaltaram um banco.’ Esta frase está na ordem direta, com sujeito, verbo e objeto direto. Se eu quiser ressaltar a ação, colocarei o verbo no início: ‘Assaltaram um banco, os bandidos.’ Se eu quiser ressaltar o alvo da ação, anteciparei ‘um banco’: Um banco, os bandidos assaltaram.’ As duas últimas orações estão na ordem indireta.
Foi o que fez o renomado jornalista. Como ele queria ressaltar a responsabilidade do governo, colocou o objeto indireto no início da oração. Assim, o sujeito, com o qual o verbo deve concordar em número e pessoa, ficou depois do verbo. Essa alteração de posições confundiu o distraído jornalista, que, inconscientemente, fez o verbo (caberá) concordar com o objeto indireto (governo), e não com o sujeito (os gastos). Se colocar a frase na ordem direta, a questão ficará mais clara: ‘Os gastos com obras... caberão ao governo.’
Ficou claro?
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